Coolmeia, Ideias em Cooperação

Seja a mudança que você quer ver no mundo.

Rafael Reinehr

O Grande Mistério da Vida, da Natureza e de Todas as Cousas

Há um mistério que busco decifrar, mas que por mais que reflita, em seus meandros e caminhos labirínticos, acabo me perdendo.
Este mistério diz respeito ao sentido da vida, não aquele último, metafísico, mas aquele que podemos dar a um tempo específico medido conforme a duração de uma vida humana. O sentido que damos às nossas vidas, à vida de cada um através dos atos que realizamos.
Quando olho ao redor vejo muito sofrimento, sofrimento físico e sofrimento psíquico, principalmente. Enquanto chegam notícias de locais sem água tratada, pessoas sem emprego, moradia, vítimas de violência física, desnutrição, pobreza, dificuldade de acesso à educação é difícil deixar de agradecer pela sorte de estar distante desta realidade, pelo menos como alvo destes sofrimentos.
Ao mesmo tempo, vislumbro diariamente pela janela que se abre no meu consultório, a cada novo paciente que entra, o sofrimento psíquico de meus pacientes. São pessoas ansiosas, deprimidas, insatisfeitas em geral, com o que conquistaram até o momento. E isso independe da classe social. Há uma espécie de meta inatingível – imposta pela sociedade, pelo grupo de convivência que escolheram – que não lhes deixa aproximarem-se da felicidade. O corpo não é o desejado, o trabalho lhes sufoca, o companheiro não corresponde ao esperado...
Fico pensando: como podemos melhorar o mundo em que vivemos e ajudar outras pessoas se nós mesmos não acertamos as contas conosco, em nosso mundo?
Como já escrevi em outras ocasiões, eu mesmo caí durante anos na armadilha do autoconhecimento, na crença vulgar de que em primeiro lugar eu precisaria me aperfeiçoar, estudando, aprimorando meus conhecimentos acerca do mundo, das pessoas e das relações entre elas para somente então começar a doar este conhecimento adquirido. Nesta peça que me foi pregada pela vida, acabei sendo enrolado durante mais de uma década. Um belo dia percebi que eu nunca estaria pronto, e que a mudança que eu desejava imprimir no mundo precisaria vir já, ENQUANTO EU AINDA ESTIVESSE APRENDENDO.
E o segredo talvez comece a se desvelar aí, nesta conclusão: não podemos esperar estarmos completamente tranqüilos, completamente realizados, estabilizados emocional e financeiramente para ajudar quem mais precisa, quem precisa mais do que nós. Não precisamos esperar nossa aposentadoria para somente então nos dedicarmos ao outro.
Ao mesmo tempo em que acho cândido uma avó que se dedica com todo amor aos seus netos, acho também egoísta. Egoísta porque esse amor está sendo concentrado, não distribuído. Isso não é uma censura, mas é somente uma constatação de um tipo de sociedade que, talvez um dia ficará obsoleta. Quem sabe um dia os avós não serão avós apenas de seus netos, mas serão avós de toda uma ecovila, de uma comunidade ou quem sabe de uma família estendida, como no livro A Ilha, de Aldous Huxley, em que cada criança tinha como pais seus pais biológicos e mais 15 ou 20 que ele mesmo escolhia para lhe ajudar durante seu desenvolvimento.
As pessoas hoje são educadas para olharem sempre para o centro de um núcleo: ou olham para seu umbigo, ou para dentro de sua família, para dentro do seu sindicato, seu grupo de amigos, seu clube ou associação. Não é errado olhar para dentro, precisamos defender nossos interesses. Só acho insuficiente olhar SOMENTE para dentro e esquecer que, do lado de fora, há um mundo que grita por ajuda.
É nesse momento que surgem ideias como a “Teoria do 1%”; se doássemos 1% do nosso tempo e dinheiro para o outro, o mundo seria definitivamente muito melhor. Esse 1% significam 14 minutos e 24 segundos por dia, o equivalente a um pouquinho menos do que 100 minutos por semana. Se doássemos esta 1 hora e 40 minutos por semana fazendo ações pelo outro, colheríamos resultados impressionantes dentro de muito pouco tempo.
Segue, entretanto, o mistério: como motivar as pessoas – pessoas ansiosas, agitadas, deprimidas, egoístas, individualistas (eis aí a maioria de nossa população) - a entregarem parte do seu tempo ao outro, em ações que revertam para todos e não somente para o seu centro de convívio?
Há um toque de Midas, há uma palavra, há uma varinha mágica, um empurrão que se possa dar? E a proatividade? Como fazemos para que mesmo pessoas interessadas em ajudar passem a fazer as coisas por si só, sem esperarem ordens superiores? Como trabalhar em rede, evitando estruturas hierárquicas? Precisaremos de quantas gerações para fazer o moinho girar na direção de produzir atitudes espontâneas sem estímulo constante de mentores, gurus ou orientadores?
Na Coolmeia mesmo, quantos são aqueles que fazem as coisas de forma espontânea, sem precisar necessariamente ser chamado na chincha a cada semana? Quantos convidaram outras pessoas a tomarem conhecimento da iniciativa? Quantos estão fazendo algo de útil pelo outro, de fato, em suas vidas? Longe de ser uma cobrança externa, esta é uma reflexão interna e um convite à reflexão interna por parte de cada um que ler e compreender este texto.
Ei, você quer ajudar, tem garra e disposição mas não sabe como? Faça-me saber! Tem dezenas de coisas que podemos produzir em conjunto. Muitos projetos estão só esperando mãos e corpos dispostos para tomarem vida. Quer fazer alguma coisa? Faça-me saber!

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